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segunda-feira, 18 de abril de 2011

Elas são chefes e eles detestam

Elas são chefes e eles detestam

Nas empresas atuais, trava-se uma guerra surda
entre homens em posição de subordinação e mulheres
hierarquicamente superiores. Eles criticam a arrogância
e a exigência das mais poderosas.


Uma crença vigente entre diretores de recursos humanos e headhunters é que a tensão nos escritórios estaria diminuindo em conseqüência da ascensão das mulheres a postos de comando e direção nas empresas. As mulheres teriam algumas qualidades intrínsecas, que faltam à maioria dos homens, para ocupar cargos de chefia: elas seriam mais habilidosas e compreensivas, escutariam com mais atenção as queixas dos subordinados e seriam mais sensíveis para lidar com os problemas pessoais dos empregados. Tudo isso estaria contribuindo para uma maior harmonização dos espíritos nos ambientes de trabalhos.

Uma pesquisa Vox Populi, encomendada por VEJA derruba este mito. Segundo a pesquisa, a maioria dos entrevistados detestou ser chefiado por mulheres. Onde os consultores vêem virtudes, a maioria dos homens, pelos resultados da pesquisa, só enxergam defeitos: as mulheres seriam inseguras, excessivamente emotivas, competitivas e, acima de tudo, arrogantes. "Alguém disse que elas são mais inteligentes do que os homens e elas passaram a se achar o máximo", disse um dos entrevistados durante o debate.

Nas empresas, trava-se uma guerra surda entre homens em posição de subordinação e mulheres hierarquicamente superiores. O que mais os irrita ao serem chefiados por mulheres é o grau de exigência feminino quando elas estão na posição de dar ordens. Na Kodak do Brasil, empresa que implantou há cinco anos um programa de valorização do sexo feminino, as reclamações mais freqüentes são que as chefes "pedem coisas desnecessárias", "são exigentes demais" e "são muito rigorosas na aplicação das regras", segundo o diretor de recursos humanos, Cármine Neto. O programa de incentivo a promoções de mulheres a cargos de chefia passou a sofrer críticas dos homens porque seria discriminatório. No ano passado, a promoção de uma mulher de encarregada para supervisora do controle de produção na fábrica da Kodak em Manaus foi motivo para um quiproquó. "O gerente de produção que sugeriu a mudança de cargo teve que dar várias explicações aos homens que passaram a ser chefiados por ela", lembra Cármine Neto.

Outra fonte de conflito é o comportamento mais emocional das mulheres, uma qualidade em geral pouco apreciada pelos subordinados em seus chefes. Segundo uma pesquisa do grupo Catho, empresa de consultoria da área de recursos humanos, o descontrole emocional é a terceira característica mais negativa que um chefe pode ter - só perde para a preguiça e a falsidade. Assim, a propensão das mulheres às lágrimas - um estudo feito pelo Dry Ear and Tear Research Center em Minnesota revelou que 85% das mulheres se sentem melhor depois de chorarem numa situação de estresse - acaba sendo visto pela maioria dos homens como um típico chilique ou faniquito feminino. "A combinação de mais sentimentalidade e menos racionalidade irrita os homens, que estão vendo as mulheres serem promovidas a cargos de chefia antes deles. Se ela for mais nova que ele, aí a situação é de tensão permanente", diz Thomas Case, sócio-fundador do grupo Catho. Considerando-se que as mulheres estão chegando aos cargos de chefia mais jovens do que os homens - as mulheres diretoras têm, em média, 38 anos, contra 41 anos dos homens - pode-se supor que muitas empresas estão se transformando em um campo minado.

Um exemplo dos desencontros trabalhistas entre homens e mulheres, quando a chefe veste saias, foi vivido pelo consultor autônomo Paulo Zanzoni Rodrigues, 29 anos. Quando trabalhava na área de cimentos de uma grande empreiteira nacional, ele foi demitido pela sua chefe. Segundo reclama Zanzoni, ele entrou em um projeto de marketing que exigia reforço de pessoal, mas a chefe não lhe deu suporte. O resultado foi a sua exoneração. "Ela disse que ia resolver e não fez nada. Era nova e insegura e não queria assumir nenhum decisão que pudesse desagradar a chefia. Depois, sem que eu soubesse, ainda falou mal de mim para outros gerentes, o que me desgastou na empresa", queixa-se Zanzoni.

Muitas das reclamações masculinas vêm carregadas de alguns velhos preconceitos machistas. Além de a ascensão feminina aos postos de chefia ser um fenômeno relativamente novo, os homens também estão pouco acostumados a serem cobrados pelas mulheres, porque costumam esperar delas sempre um tratamento mais dócil e tolerante. Quando sofrem exigências mais duras, acham que estão sendo traídos por elas. Há, porém, também uma parcela de culpa das mulheres nesse conflito. Afinal não são só os homens que reclamam da arrogância de certas chefes. Elas (e como!) também se queixam e, em geral, preferem estar sob o comando de um homem no escritório. Uma razão para isso é que mulheres que subiram aos escalões mais altos de suas carreiras tiveram de adotar um comportamento tipicamente masculino e ser mais duronas do que os próprios homens para chegar ao topo. "A mulher que alcança postos de destaque é realmente competitiva, pois precisa romper regras culturais que ainda dificultam a sua promoção na carreira", diz Patrícia Molinos, diretora da empresa de consultoria KPMG. "Mas ela precisa saber que ao adotar um modelo mais masculinizado de chefia, estará deixando de lado características que a diferenciam e que muitas vezes a levaram ao cargo", acrescenta Molinos.

Um dos aspectos mais reveladores da pesquisa Vox Populi é que os entrevistados que declararam ter ótimo relacionamento com mulheres chefes foram justamente os mais bonitinhos e arrumados - sinal da reprodução de uma postura antes condenada como tipicamente machista . Pode-se dizer, de certa forma, que muitas mulheres que subiram profissionalmente ainda vivem uma crise de identidade, que se reflete até na maneira pasteurizada como se vestem. Elas não encontraram um padrão de comportamento que seja um meio-termo: nem tão agressiva e workaholic, nem tão compreensiva e vulnerável. Enquanto esse mundo ideal não chega, a solução para os homens que trabalham sob o jugo feminino, segundo o professor Júlio Lobos, autor de 15 livros sobre temas do mundo do trabalho, é tentar compreender as diferenças entre os chefes e as chefes. "Se o homem entende e valoriza essas diferenças, ele passa a respeitar a contribuição que a mulher traz ao trabalho", diz Lobo. "Mas a verdade é que vai demorar muito até a igualdade dos sexos chegar às paredes do escritório", afirma.

É um sinal dos novos tempos. Com a invasão dos saltos altos nos escritórios e ambientes de trabalho, homens e mulheres vêm travando disputas cada vez mais acirradas por cargos, promoções e prêmios. A novidade é que agora elas, quase sempre, estão levando a melhor. Segundo uma recente pesquisa feita em todo o Brasil pelo Grupo Catho, uma das maiores empresas de recursos humanos do país, as mulheres estão sendo contratadas em maior proporção que os homens. Elas já são maioria em muitas empresas e também são promovidas mais rapidamente do que eles a cargos de direção em pequenas e médias companhias. Hoje, 20% dos cargos executivos nas empresas são ocupados por mulheres. Há pouco menos de uma década, essa proporção não passava de 13%. Como resultado da inevitável ascensão feminina, a diferença de remuneração entre homens e mulheres em cargos executivos, antes de quase 20% a favor deles, agora está reduzida para cerca de 10%. "Até os cargos de nível médio, as mulheres demoram mais a crescer dentro das empresas do que os homens. A partir dali, o crescimento delas é mais veloz", diz Miriam Adissi, diretora geral da Catho.

Atônitos, alguns homens observam o avanço feminino no seu antigo feudo como uma nova invasão dos hunos. Na pesquisa Vox Populi, encomendada por VEJA, a maioria dos entrevistados se queixou de concorrência desleal por parte das mulheres. As reclamações são de um machismo de doer. Eles dizem que as mulheres costumam ter um tratamento mais condescendente dos chefes por serem mulheres e usam os velhos truques da sedução feminina para conseguir vantagens no trabalho. Se o filho estiver doente e precisar ir ao médico, ela pode sair mais cedo que ninguém ficará olhando de esguelha. Mulher pode (não deveria, mas pode) entrar na sala do chefe em um dia de trabalho infernal e desabar numa crise de choro - ainda assim não parecerá um escândalo, principalmente se ela estiver em uma dia de TPM. Por mais estressado que esteja, o chefe também nunca vai lidar aos berros com uma subordinada, da mesma forma que poderia fazer com o colega dela na mesa ao lado. Um certo código de cavalheirismo ainda vigente entre os homens torna condenável esse tipo de comportamento.

"A mulher ainda está cercada por uma redoma protetora dentro do ambiente de trabalho", observa o engenheiro carioca Felipe Aragão, que trabalha em um dos poucos ambientes onde ainda há total predominância masculina: a mesa de operações de um banco de investimentos. "Se um chefe gritar comigo, no dia seguinte eu já vou ter esquecido. Com uma mulher, vai dar uma semana de dor de cabeça e inviabilizar o trabalho. Por isso, o tratamento com elas tende a ser mais suave e tolerante", diz Aragão, que acredita já ter sido rejeitado numa seleção de trabalho porque a empresa tinha preferência pela contratação de uma pessoa do sexo feminino. Ouvir esse tipo de lamúria está cada vez mais corriqueiro. Em processos em que homens procuram a empresa em busca de recolocações no mercado de trabalho, é comum que executivos se queixem de que foram preteridos em uma promoção por causa de uma concorrente feminina. No confessionário da mesa de entrevista, acabam resvalando para os ataques a supostos golpes baixos das mulheres, que, armadas do mesmo know-how técnico, ainda recorrem ao arsenal emocional ou da atração sexual para ascenderem profissionalmente.

É obvio que em muitas áreas - marketing, por exemplo - a beleza ou um simples toque feminino ajuda a abrir portas e facilita contatos. "Uma mulher bonita ou bem produzida normalmente consegue o que quer e é atendida com mais boa vontade", reconhece Guilherme Guimarães, assistente de marketing da Glaxo SmithKline. Ele já cansou de ver alguma colega obter informações mais rápido do que ele pelo fato de simplesmente ser mulher. Na Advice Net Business, todas as funcionárias da gerência de projetos, área onde é mais estreito o contato com clientes, são mulheres. Guilherme Iglesias, diretor comercial, financeiro e administrativo da Advice, nega que a sedução feminina seja usada como estratégia comercial, mas observa que algumas "habilidades naturais femininas", como paciência e atenção a detalhes, são trunfos no relacionamento com os clientes. "Até a voz é mais agradável de ouvir", diz. "O executivo que lida com ela também vai ser mais delicado. Com o homem, um embate de idéias pode acabar em bate-boca."

Acreditar, porém, que a ascensão feminina no mundo do trabalho se deve a um maior traquejo delas com roupas, maquiagem ou o jogo do charme é uma visão equivocada e cheia de preconceitos. "O homem ainda não está preparado para competir com a mulher. Isso fere os seus brios e a facilidade natural da mulher em administrar o incomoda", diz a consultora Miriam Adissi. As mulheres costumam ser mais concentradas, dedicadas, atentas a detalhes e afeitas ao trabalho em equipe, observa o vice-presidente de automóveis da Seguradora Sul América, Julio Avellar. Depois de 26 anos de experiência profissional, Avellar aprendeu a dar preferência às mulheres no trabalho e comanda um setor onde 60% dos 2 mil funcionários são do sexo feminino.

Algumas qualidades inatas contribuem também para que as mulheres se destaquem cada vez mais no mundo corporativo. Acostumadas a jornadas de trabalho duplas, até triplas, elas costumam ter uma incrível facilidade para fazer várias coisas ao mesmo tempo. É normal que ao entrar às 9h no escritório, uma mulher já tenha despachado com a empregada, levado as crianças à escola e ido à academia de ginástica. Na hora do almoço, elas comem uma saladinha rápida para fazer compras no shopping center ou ir ao salão. Com uma agenda semelhante, os homens simplesmente enlouqueceriam. "Elas são multi-tarefas, estrategistas natas", brinca Marcelo Nacif, diretor de planejamento da Advice. Outra virtude - que os homens costumam atribuir ao pendor feminino pela fofoca - é a capacidade, desde o primeira dia de trabalho, de tomar conhecimento de tudo o que está se passando no escritório. "Mas os homens têm outras qualidades: são objetivos, centrados e inspiram confiança. Não há porque se estranhar por isso. As empresas precisam de homens e mulheres com suas características próprias", Adriana Fellipelli, da sócia-diretora da consultoria Right Saade Fellipelli.

Fonte: Veja



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