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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Crítica: importância e pecados



A capacidade, sua utilidade e oportunidades de melhoria

Todos nós certamente já fizemos e vamos fazer algum tipo de crítica, seja construtiva ou destrutiva, seja a outros ou a nós mesmos: criticamos um trabalho, criticamos comportamentos e formas de expressão, criticamos atitudes, criticamos texto de e-mails, criticamos um site ou parte do seu conteúdo. Mas você certamente já foi criticado ou criticou injustamente, seja por si mesmo ou por alguém que não entendia todo o contexto do que estava acontecendo ou que tinha uma visão muito simplificada da situação.

Nesta matéria vamos ver que a crítica na verdade é uma habilidade importante e também alguns pecados que podemos cometer quando no papel de autocríticos e que podem descaracterizar esse recurso e, ao invés de melhorar, piorar as coisas.

O papel da crítica

Você certamente já escreveu um e-mail e, antes de enviá-lo, deu uma lida e fez algumas correções. Também já fez algum trabalho ou relatório e releu-o várias vezes, fazendo correções e melhorias. Se você observar com atenção, vai notar que dificilmente fazemos algo perfeito de primeira; o padrão mais comum é revisarmos pelo menos uma vez nossos produtos. O nível desejado de qualidade não é obtido por agirmos com perfeição, e sim por uma busca e correção de imperfeições segundo alguns critérios de qualidade. Às vezes fazemos isso até em tempo real, como quando falamos algo, percebemos um erro e refazemos a frase antes mesmo de completá-la.

O propósito de criticar, portanto, é melhorar a qualidade. Muitos periódicos, como revistas e jornais, mantém revisores para achar erros de digitação e gramática. Outro tipo de profissional, o copidesque, não só revisa como faz sugestões ao autor de uma matéria. Há empresas que economizam nesta área e o resultado logo aparece, na forma de erros variados em publicações, capas, embalagens, sites e outras mídias. Criticar é tão importante que o Crítico era um dos papéis-chave do ciclo criativo de Walt Disney, que ainda tinha o Sonhador, que idealizava o que seria feito, e o Realista, que concebia as ações para a concretização dos sonhos. Disney, no papel do Crítico, olhava os planos a uma certa distância e fazia perguntas provocadoras ao Sonhador e ao Realista, tudo com a intenção de melhorar a qualidade do plano.

Como qualquer habilidade, a crítica pode ser mais ou menos bem usada. Veja a seguir possíveis mal usos dessa habilidade quando aplicada a nós mesmos e a outros.

Pecado 1: Criticar o passado com os olhos atuais

Um belo dia, você se lembra de um certo acontecimento e já vai pensando: "Ih, que bobeira" ou "Como fui burro", podendo até sentir alguma emoção de uma maneira limitante, talvez não se conformando em ter agido como agiu. O pecado aqui é criticar-se em um momento anterior com os critérios e a experiência que tem hoje. A maneira como se comportou no passado espelhava sua maturidade, conhecimentos, objetivos e capacidade de então. Criticar-se no passado com os olhos de hoje, depois de viver, amadurecer e se capacitar mais, é semelhante a julgar uma criança e ter expectativas dela segundo os mesmos critérios aplicados a um adulto.

Pecado 2: Criticar o futuro com os olhos atuais

José Maria foi convidado para dar aulas, mas não aceitou, porque achou que "não ia dar conta". Talvez ele estivesse certo, talvez realmente fosse um fracasso como professor, se fosse dar aulas amanhã. Ocorre que o que um professor diz e faz em sala não é feito na véspera, é resultado de anos de experiência e, em particular, de planejamento, execução, crítica e aperfeiçoamento na próxima vez. O pecado de José Maria foi criticar-se fazendo algo no futuro à luz de sua capacidade atual, sem incluir a preparação que, como fazer as malas para uma viagem, está por trás da grande maioria das atividades profissionais: planejamento, ensaio, testes, pesquisas, muito aprendizado envolvendo novas habilidades. Um professor, assim como um ator e outros profissionais, tipicamente só improvisa depois de muita experiência. Na minha opinião, José só não pecou se ele não tinha experiência significativa com o conteúdo das aulas, aspecto para mim crítico do magistério.

Fui consultado uma vez sobre algo que acontecia com uma pessoa: quando ele pensava em alguma melhoria profissional, tinha pensamentos "negativos", as coisas dando errado. Sem informações muito específicas, pareceu-me que um dos aspectos do que estava acontecendo era que a sua avaliação crítica de si mesmo em uma nova função estava lhe mostrando que, se não se preparasse, a chance era mesmo de fracasso. As projeções de futuro que lhe ocorriam forneciam as pistas para o que ele deveria fazer para conseguir o que pretendia.

Teste-se: você pularia de pára-quedas? Se "arrepiou", pense agora a mesma coisa, depois de fazer um treinamento com quem sabe, muita preparação física, ensaios mentais para lidar com situações de emergência e alguma outra coisa que inventar. Você pode até continuar, se é o seu caso, com medo de morrer estatelado e decidir não pular, mas não o fará por não se considerar capaz.

Pecado 3: Criticar por um só aspecto

Quando alguém afirma "Sou incompetente", "Estou sendo incompetente", "Fui incompetente" ou algo assim, está fazendo uma crítica por um ponto de vista apenas, o de que não foi capaz de perceber ou fazer algo. Fazer isso é uma sonora e estupenda injustiça consigo mesmo, já que generaliza para o todo algo que ocorreu em uma situação apenas. Fazendo isso, a pessoa está ignorando todas as coisas inteligentes que já fez e disse em toda a vida, incluindo o que fez de bom ou certo na situação e até a construção da própria frase, que requer conhecimentos de palavras, significados e sintaxe do idioma. Também está ignorando possíveis aprendizados com a situação, ou seja, que ali pode estar justamente a oportunidade de melhoria que vai permitir que a situação não se repita no futuro. Também está considerando somente a própria opinião e ignorando a de outros envolvidos: quem viu ou ouviu pode não ter dado a mínima. E também pode estar desconsiderando que haverá decorrências futuras boas da situação, embora no momento seguinte possa não ter havido nenhuma.

Na verdade, podem existir dezenas ou milhares de aspectos em uma situação, que resultam em muitas descrições possíveis. Ao invés de "Fui incompetente", por exemplo, a descrição poderia ser "Não consegui os resultados que pretendia", abrindo espaço para, ao invés de um julgamento, adotar uma atitude de se ajustar e fazer algo diferente. Outra visão da mesma situação é a de que a pessoa que se criticou pôde reconhecer que fez algo que não foi apropriado, e ser capaz de reconhecer isso significa que a percepção do que seria mais inteligente está lá, só não foi traduzida de forma apropriada em ações (e, com a experiência do que ocorreu, ficou mais fácil agir efetivamente). Mais um aspecto? Muitas vezes a única conseqüência desagradável de uma situação é provocada por nós mesmos, na forma de uma reação emocional associada à própria autocrítica.

Pecado 4: Criticar a autocrítica

Bem, aí você veio lendo até aqui e pode ser que tenha pensado que não está sendo um bom autocrítico, ou talvez você costume dizer para si mesmo e para outros que é muito crítico, e talvez não considere isso algo muito bom. Nesse caso, você está criticando a sua autocrítica, e pode aproveitar para melhorá-la, lembrando que a crítica é como uma ferramenta mental, e ferramentas não são a princípio boas nem ruins, depende de como são usadas. Se for para criticar a autocrítica, critique a maneira como vem usando essa habilidade e use isso para fazer melhorias.

Pecado 5: Não fazer autocríticas

Todos já vimos pessoas que não costumam se autocriticar; são como são, "assim mesmo", e não têm oportunidades de melhoria. Talvez nós mesmos já tenhamos agido assim pelo menos por épocas ou momentos. O sétimo pecado, jamais fazer autocríticas, conduz à estagnação evolutiva, ao não aprendizado, ao não aperfeiçoamento. Se você não é perfeito, não está "pronto", então já deve ter percebido que autocríticas são criadoras de oportunidades, e por isso merecem atenção especial, seja no sentido de seu aprofundamento e "alargamento", validação de sua procedência e escolha de como e para que será usada.

Pecado 6: Não ter hora para criticar

A autocrítica muitas vezes surge inoportunamente, prejudicando nossa espontaneidade e o fluir das ações. Quando estamos elaborando algo ou criando, como ao redigir uma carta, relatório ou outro tipo de texto, ficar criticando a cada passo e querer ou esperar que cada passo seja perfeito pode ser um bloqueio. Na verdade, os critérios de qualidade, nesse contexto, devem ser aplicados aos nossos produtos, e não a nós. Assim, até que o produto vá para o seu destino e saia do nosso controle, seja o destinatário, cliente ou usuário, podemos ter toda a liberdade que quisermos sem conseqüências, exceto alguma boa idéia que um "erro" por vezes proporciona. Einstein levou uns 20 anos para publicar suas teorias maiores, a Relatividade Geral e a Restrita; você acha que ele acertou todas as conclusões nesse período? E ele é considerado gênio.

Pessoalmente, o melhor a fazer pode ser definir o "Momento de autocrítica" ou ponto de controle, no qual que você se dedica exclusivamente à intenção de aplicar a habilidade de crítica para identificar possibilidades de melhoria e o que vai fazer com elas. Nesses momentos você se torna O Crítico, aquele sujeitinho fazedor de perguntas, às vezes chato e provocador, mas com a missão fundamental de descobrir os vários aspectos relevantes da situação, reconhecer o que está bom, detectar imperfeições ou riscos e sugerir melhorias. Seja uma vez por dia ou por semana, gradativamente você vai se disciplinando e se beneficiando duplamente: fluindo pela vida com menos interrupções e crescendo com o apoio de uma autocrítica útil.

Pecado 7: Criticar-se sem propósito de melhoria

Se o papel da crítica é melhorar a qualidade, fazer autocríticas sem a intenção de usá-las para fazer melhorias é pura perda de tempo. Ter uma intenção convicta de aperfeiçoamento é algo tão poderoso que, mesmo quando alguém recebe uma crítica pretensamente destrutiva, ela é transformada em construtiva pela receptividade e pela disposição de aproveitar as oportunidades de aperfeiçoamento expostas. Quem tem tais intenções sabe que, no fundo, não faz muita diferença de quem vem ou como vem ou ainda quando vem uma crítica; o importante mesmo é descobrir - para poder aproveitar - as oportunidades.


Fonte: Virgílio Vasconcelos Vilela

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